Estagiar num lar de idosos fez-me ver as coisas mais claramente, no seu real, na sua forma crua e fria. Ver as pessoas, as interacções, as patologias, as visitas, toda uma constelação de coisas para as quais é necessária uma certa insensibilidade por parte dos profissionais de saúde para conseguir suportar.
Uma destas coisas é, com certeza, o envelhecimento. Pensar que todos nascemos com algumas competências, competências estas que vão sendo apreendidas ao longo do tempo: o primeiro olhar, o primeiro sorriso, a primeira palavra, o primeiro passo... Coisas lindas de se ver, quanto a isso não haja dúvida. Mas ver o processo inverso a este referido.., tem que se lhe diga. Ver uma pessoa vivida, com mil e uma histórias para contar, perder todas as suas competências, desde o andar, ao saber lavar-se, vestir-se, alimentar-se, esquecer-se do que vai fazer, esquecer como realizar uma tarefa que costumava fazer diariamente, custa. Custa-nos a nós, profissionais de saúde, mas também com certeza à pessoa em si também. Todo aquele sentimento de ineficácia, de impotência, de "sinto-me um estorvo", é ,certamente, indiscernível, a não ser que se esteja a passar pelo processo de envelhecimento. =/
Mas outra coisa que, confesso, ainda mais me custa observar, são as visitas aos utentes dos lares. Quer dizer, vêm as (supostas) famílias visitar o idoso, e nem sequer se dirigem para o jardim, estando um dia lindo, com sol, no qual só há vontade de sair e ver a beleza das coisas? Que famílias são estas, que vêm ao lar apenas pela imagem, apenas pelo medo de os outros comentarem "se eu não for ver X pessoa vão falar mal de mim, pensar que sou isto ou aquilo"? Famílias que, quando estão com os pais, mães, avós, patos, galinhas, kangurus, o que quer que seja, nem sequer se dignam a olhar a pessoa nos olhos, a ter uma conversa minimamente decente, algumas das quais se limitam a pintar as unhas enquanto lá estão?!
É uma visão revoltante, no mínimo...
É triste...
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